segunda-feira, 11 de julho de 2011

Livros que detonam: uma obra esquecida de TOLSTOI...

Eu beberia uma(s) vodka(s) com esse velhote...
Leon (ou Lev, Liev, Leão...) Tolstoi é figurinha carimbada para aqueles que costumam ser, em maior ou menor grau, ratos de biblioteca como eu. O russo, nascido pelos idos de 1828, habita o panteão da literatura mundial e, neste caso, mais do que merecidamente (não digo isso de todos...).
Mas, geralmente quando se pergunta "o que você conhece de Tolstoi?", as respostas são sempre óbvias: "Anna Karenina", e o calhamaço "Guerra e Paz", obras que evidenciam a genialidade do menino. Seu modo de escrever é envolvente, o ritmo é fluido. Mesmo em livros intermináveis, a levada é a de um contador de histórias; simples, mas sofisticado.
Só que eu gostaria de falar de um livro quase "apócrifo" do L.T.. E isso porque foi banido por um bom tempo, censurado pelos czares russos por seu conteúdo revolucionário à época. Muitos já devem até ter ouvido falar, mas esse título espanta muitos leitores sérios, principalmente os mais céticos, agnósticos e ateus. 
O título em português é "O REINO DE DEUS ESTÁ EM VÓS", e foi escrito quando Tolstoi tinha cerca de 66 anos de idade.

Por que esse livro detona? O escritor utiliza o Cristianismo para fundamentar a criação de uma nova sociedade, baseada mais em princípios de moralidade e sociabilidade do que em governo e cidadania. O brilhante é que ele não era exatamente um cristão bitolado - chegou a ser excomungado pela Igreja Ortodoxa por combater dogmas como a dualidade de Jesus como homem e deus. Passou a vida pregando a busca de um deus pessoal e interior, que qualquer um poderia encontrar dentro de si, e somente em seus últimos anos de vida voltou-se fortemente à doutrina cristã "de cabresto", embora tenha se recusado a fazer as pazes com a igreja que o havia enxotado. Contudo, nesta obra, ele se utiliza de um vasto conhecimento para justificar a necessidade de mudanças na própria forma de governo, baseado apenas nos princípios cristãos.
Tolstoi era anarquista - e POUQUÍSSIMOS compreendem o sentido dessa palavra, hoje associada a bagunça, desgoverno e falta de escrúpulos. O anarquismo a que ele se refere é um princípio pacífico, social, onde a ÉTICA conduz as relações entre os homens, a não-violência é imperiosa, até o ponto em que as pessoas consigam se auto-governar, ao mesmo tempo em que ajudam e convivem com seu próximo. Foi amigo de Ghandi, e com ele compartilhava a teoria da resistência pacífica.
O ponto forte deste livro é expor o Cristianismo aos cristãos e perguntar: "e aí? você vai só dizer que segue, ou vai PRATICAR o que seu deus te ensina?" (claro, numa colocação bem pessoal deste que vos escreve...)
Abordando principalmente os conflitos bélicos, a imbecilidade do serviço militar obrigatório, a discrepância do apoio dado pelas igrejas aos senhores da guerra, ele vai, paulatinamente, deixando os cristãos envergonhados, sem resposta para seus questionamentos.
Mas, obviamente, embora um livre-pensador à frente de seu tempo, certos conceitos herdados surgem, enraizados em sua personalidade. Tolstoi defendia a penitência, e até uma certa forma de celibato (nem...!), não era muito fã de avanços tecnológicos como um todo, e defendia até mesmo um modo de vida mais primitivo, como o dos primeiros cristãos.

De qualquer modo, se o assunto lhe interessa, se Tolstoi lhe interessa, ou se o livre-pensar lhe interessa ( e eu espero que sim!), esse é um daqueles livros que você precisa ler antes de ir pro buraco. Se você segue o cristianismo, é bom estar preparado, porque o velhinho vai te fazer questionamentos pesados e honestos. Se não segue, leia sem "pré-conceitos", procurando entender qual é a verdadeira proposta do autor. Abra a sua mente, e surpreenda-se com o que um velhote que viveu há tanto tempo tem a ensinar.

Pelo "subtítulo", você vê que é serious business...


música para reflexão: "Siberian Vacation", do Wild Dogs.


\,,/

7 comentários:

Mara disse...

Grande obra! Quando li descobri que não era a única que não engolia certas "verdades" fabricadas. Não sigo religiões porque não me agrada o modo como as doutrinas são "usadas" em prol de interesses não tão eclesiásticos assim. Tolstoi deixa claro esta visão, de que a religião (eu prefiro encarar como religião e não como cristianismo) deve ser compreendida como uma espécie de atitude moral a ser edificada pelo ser humano dia após dia, e não como simples misticismo pregador de medo e ceifador da liberdade humana. Parabéns pela descrição do livro e, excelente indicação!

Long live \m/

Mara.

Freak disse...

to lendo o anticristo (mais devagar do que deveria, já devia ter terminado), e tem essa crítica também. valeu a recomendação ;)

Erika disse...

Que achado, hein? Nunca tinha ouvido falar deste livro. Vou anotar sua dica para ler numa fase "menos revoltada" com os conceitos religiosos para ler com mente mais aberta.

Conservado no ROCK disse...

Erika...
Se eu fosse esperar essa "fase", jamais teria lido...rsrsrs.
Pode ler sem medo. Na verdade, o importante não é nem a conceituação religiosa, mas o debate. L.T. usou a base cristã apenas para contrapor argumentos difíceis de rebater...
Vale a leitura, eu garanto!

\,,/

Débora disse...

O texto me lembrou imensamente do meu pai, que era ateu também. Discurso agradavelmente parecido. Bom, arquivo baixado, conversarei com Leon.

Aline Aimée disse...

Confesso que dele só li Anna Karenina mesmo, mas achei tua descrição e análise bem interessantes.
Vou procurar!

Heloíza disse...

Também nunca li nada dele, só Anna Karenina. Mas conheço um pouco desse 'outro lado da força', vou procurar!